Como Desatar o Nó (1)

09/04/2017 – 16h08
Sérgio Besserman Vianna, O Globo

‘A resposta é a infelicidade da pergunta” (André Green), não custa repetir. Comecemos, então, deixando bem claro de que pergunta, de que nó, estamos falando.

Em 2013, ainda antes da crise econômica manifestar seus efeitos, o povo nas ruas entoava uma miríade incongruente de reivindicações. Mas havia algo em comum no coração de todos, coxinhas ou black blocs: o berro de que “ O rei está nu”.

O papo furado de que seriamos uma nação desenvolvida em 20 anos (lembram?), a presidente da República dando aula de economia para os lideres dos maiores países do mundo, o lero lero de que estava tudo ótimo ruiu com estrondo.

Eleições de 2014 realizadas como foram e estelionato eleitoral evidenciado imediatamente após os resultados, pela inevitável reversão completa da política econômica (infelizmente, apenas no discurso do governo anterior), significaram para a população “ruptura de contrato”, ou , em linguagem popular, trairagem. A popularidade do governo foi para debaixo do pré-sal.

2015 e 2016 derrubaram os muros que restavam. De um lado a maior crise econômica da história, de outro, uma divida pública com trajetória insolvente (portanto, calote ou inflação no futuro relativamente próximo) e, finalmente, a Lava-Jato expondo as vísceras do nosso sistema de poder e do capitalismo de estado estilo brasileiro.

Impeachment e “Fora Temer” dividiram o Brasil. Uma pena. Em nome de interesses partidários, corporativos, ou pessoais, a polarização ocorre em torno de bandeiras anacrônicas, às vezes espantosamente irracionais, falsas perguntas que não levam a lugar algum.

Pôr a casa em ordem, estabilização da trajetória da dívida, realidade orçamentária, reforma da Previdência são apenas o óbvio aritmético (e não garantem crescimento algum no futuro, apenas evitam o desastre). Para deleite dos historiadores do futuro, no Brasil, nos anos de vacas gordas, a fábula de La Fontaine adquiriu macunaímica mudança: não apenas a cigarra cantou o verão inteiro como convenceu as formigas a caírem na festa.

O que está claro agora para todos, não apenas para os analistas e leitores intelectualizados, é que o sistema de poder, e com ele todas as instituições dessa República, estão nus. O barão, o marquês, o conde e o visconde estão nus.

A legitimidade do sistema acabou, a República de 1988 morreu. Não tem ressurreição. Quanto mais os donos do poder tentam preservar o que for possível de suas peles, mais contundente esse grito ecoa no coração do povo, não de uma forma politizada, mas, e essa é a questão, de uma forma incontornável e irrecuperável.

Estamos em uma encruzilhada civilizatória porque, meus poucos e queridos leitores, se os de cima “podem” e isso não é mais segredo, então todos “podem”, cada um do jeito que der. E o povo, cada um com seu pensamento, sabe disso muito bem.

O que fazer? Acabou o espaço. Mês que vem a conversa continua…

Sérgio Besserman Vianna é presidente do Instituto Jardim Botânico do Rio

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